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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Mais uma história...

Hoje estamos postando a última história desse período de férias. Escolhemos mais uma fábula.
Você conhece essa?

A gansa que punha ovos de ouro

Um homem possuía uma gansa que, toda manhã, punha um ovo de outro. Vendendo estes ovos preciosos ele estava acumulando uma grande fortuna. Quanto mais rico ficava porém, mais avarento1 se tornava. Começou a achar que um ovo só, por dia, era pouco.
"Por que não põe dois ovos, quatro ou cinco?" - pensava ele. "Provavelmente, se eu abrir a barriga desta ave, encontrarei uma centena de ovos e viverei como um nababo2".
Assim pensando, matou a gansa, abriu-lhe a barriga e, naturalmente, nada encontrou.


Quem tudo quer, tudo perde.

(Fábula de Esopo, extraída de O Mundo da Criança, volume 3)


1Aquele que alimenta a paixão de juntar dinheiro. Sovina, pão-duro.

2Homem rico que faz alarde de sua riqueza.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Mais história...

Aí vai mais uma história para você. Desta vez escolhemos uma fábula. Veja se já conhece essa.

O leão e o rato

Uma vez, quando o leão estava dormindo, um ratinho pôs-se a passear em suas costas. Isto logo acordou o leão, que segurou o bichinho com sua enorme pata e abriu a grande mandíbula para engoli-lo.
- Perdão, rei dos animais, gritou o ratinho, Deixe-me ir, não o importunarei mais. Quem sabe se um dia não conseguirei pagar-lhe este favor?
O leão riu-se muito ao pensar na possibilidade de o ratinho ajudá-lo em alguma coisa. Afinal, soltou-o.
Algum tempo depois, o leão caiu numa armadilha. Os caçadores, que desejavam levá-lo vivo ao rei, amarram-no numa árvore, enquanto iam providenciar um vagão para transportá-lo. Nesse momento, apareceu o ratinho. Vendo o apuro em que se encontrava o leão, num instante roeu as cordas que o prendiam à árvore.
- Eu não disse que talvez um dia pudesse ajudá-lo? lembrou o rato.

Os amigos provam-se nas horas difíceis.

(Fábula de Esopo, extraída de "O mundo da Criança", volume 3)

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

E ainda mais uma...

Lá vem história outra vez...
E essa é uma lenda indígena. Esperamos que vocês gostem...
Semana que vem tem mais!! Acesse o nosso blog e diga o que você achou da história.

O Sol e a Lua

(lenda indígena)


O Sol tinha acabado de passar um pouco de curare 1 em suas flechas e guardava a zarabatana2 bem à mão, pronto para atirar. Não desgrudava os olhos dos galhos das árvores, prestando atenção ao menor movimento das folhas. De repente, ouviu uma gargalhada que o fez voltar-se. Sem perceber, acabara de passar por um garoto que estava sentado ao pé de uma árvore com dois magníficos papagaios.

O Sol se deteve e resolveu descansar um pouco junto deles. Nem viu o tempo passar e, quando se deu conta, o dia já estava acabando. Não conseguia sair de perto dos dois papagaios que tanto o divertiam. Assim propôs ao menino levar os dois papagaios em troca de seu cocar de plumas. O garoto estava muito preocupado com sua aparência, pois acabara de completar dez anos. Agora já poderia pintar o corpo com urucum e jenipapo. Seus cabelos acabavam de ser cortados e, quando crescessem de novo, ele teria o direito de prendê-los ou fazer tranças. Seria um rapazinho... Já tinha as maçãs do rosto pintadas. Imaginava-se entrando na aldeia com aquele cocar de plumas. Aceitou com alegria o oferecimento do Sol e lá se foi, dançando em direção à aldeia.

O Sol também estava com pressa, louco para mostrar ao seu amigo Lua3 os dois papagaios. O amigo ficou maravilhado com a beleza da plumagem dos pássaros e se divertiu muito com as palavras engraçadas que eles diziam. Assim, resolveu adotar um deles. Escolheu o verde de cabeça amarela e o deixou em sua oca, empoleirado num pedaço de pau que enfiou no chão. O sol também fez um poleiro para seu papagaio e o alimentou com grãos e sementes de todo tipo.

Na manhã seguinte, os amigos Lua e Sol foram pescar. Levaram arco e flecha e também arpões, para o caso de encontrarem o pirarucu, que era seu peixe favorito, mas dificílimo de pegar. Ao anoitecer, voltando para casa, estavam muito cansados e não tiveram forças para preparar os peixes que haviam pescado. Deitaram-se nas esteiras e logo dormiram. Os papagaios pareciam tristes por vê-los assim, e naquela noite ficaram em silêncio.

Nos dias que se seguiram, o Sol e seu companheiro Lua não conseguiam entender por que os papagaios estavam tão tristes. Quando os pegavam nas mãos para que se empoleirassem nos dedos, tentando ensiná-los a falar, os pássaros pareciam não mais se divertir.

Mas um dia, ao voltarem da caça, tiveram um dupla surpresa. Primeiro,os papagaios foram ao encontro deles, falando como nunca. Saltitavam de um ombro para outro, como se quisessem cantar e dançar. Dentro da oca, uma surpresa ainda maior os aguardava: junto ao fogo havia duas grandes vasilhas com cassaripe4 fumegante! Quem teria preparado a comida? Eles se sentaram, comeram todo o delicioso pirão e se deitaram. Mas não conseguiam dormir. Que mistério! Os papagaios os olhavam com um ar divertido. Se pudessem falar, será que poderiam contar o que havia acontecido?

No dia seguinte, quando foram caçar, os dois tinham a cabeça cheia de perguntas sem respostas. Enquanto isso, na oca, acontecia uma cena estranha.

Os dois papagaios se transformavam pouco a pouco em duas moças encantadoras, de cabelos longos, pretos e brilhantes como a noite sob a chuva. Quando a metamorfose5 se completou, uma delas se escondeu perto da porta para ver quando os dois amigos voltavam, enquanto a outra preparava a refeição.

- Depressa, não temos muito tempo! Hoje eles disseram que chegariam mais cedo. Temos de acabar antes que voltem. Quando chegam da caça, eles vêm tão cansados!

E que surpresa tiveram os dois mais uma vez! Resolveram que no dia seguinte voltariam mais cedo e entrariam escondido pelos fundos. Dito e feito: deslumbrados com a beleza das duas moças apaixonaram-se por elas e suplicaram que nunca mais se transformassem em papagaios de novo. Fizeram um grande festa para celebrar os casamentos. Mas a casa havia ficado pequena demais para quatro pessoas, e por isso decidiram se revezar para ocupá-la. O Sol e sua mulher escolheram o dia. Lua aceitou a noite. É por isso que nunca vemos o Sol e a Lua ao mesmo tempo no céu.

1Veneno muito forte preparado pelos índios sul-americanos, para envenenar flechas.

2Canudo comprido pelo qual se arremessam, com sopro, setas, bolinhas e outros projéteis.

3Na mitologia dos índios da Amazônia, a lua é frequentemente representada na forma de um rapaz.

4Alimento que se obtém deixando cozinhar e engrossar a água onde se lava a mandioca, temperada com pimenta, e na qual se opõe para cozinhar todo tipo de carne em pedaços, peixes, frutinhas, raízes, insetos e larvas.

5Transformação.


(Lenda indígena extraída de A Amazônia – mitos e lendas. Editora Ática, 1997)

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

E lá vem mais uma...

Hoje é 3a. feira, dia de uma nova história!
Gostou das duas primeiras? Então, faça seu comentário e recomende o nosso blog para os seus amigos.
Hoje, temos mais uma. Aproveite!!!
Esta é uma história popular da Holanda, cujo personagem principal é um espertalhão parecido com o nosso Pedro Malasarte.
Ao final, você pode encontrar o significado de algumas palavras ou expressões, tá?
Aí vai...

Tyl Uilenspiegel


Um dia, Til Uilenspiegel 1 chegou a uma cidade que era sede de uma universidade famosa. Tinha muita fome e era bastante preguiçoso. Portanto, pôs a inteligência a funcionar a fim de conseguir alimento e moradia, sem trabalhar para obtê-los.

Fez com que um dos arautos2 da cidade gritasse na praça do mercado que ele, Tyl Uilenspiegel, poderia ensinar um burro a ler e a falar em dois anos, se alguém lhe desse um burro e o alimentasse e abrigasse, bem como a ele próprio durante esses dois anos.

Ora, o reitor da universidade, que tinha ouvido falar de Tyl antes daquilo, e sabia ser ele um sujeito muito esperto, resolveu dar-lhe uma oportunidade de provar que era esperto até aquele ponto. Mandou chamá-lo, disse-lhe que escolhesse ele próprio um burro, e concordou em alimentá-lo e alojá-lo, bem como ao animal, durante os dois anos.

Tyl escolheu o burro mais velho que pode encontrar e colocou-o num estábulo próximo. No dia seguinte comprou uma gramática de tamanho bem grande e colocou alguns grãos de aveia entre as folhas, deixando o livro aberto na primeira página, perto do burro. O animal engoliu depressa a aveia e, sentindo, pelo faro, que havia mais, empurrou com o focinho a página seguinte, e a seguinte, e a seguinte, até ter lambido página por página, sem deixar um só grão. Todos os dias Tyl colocava a gramática com a aveia diante do burro, até que o animal aprendesse a virar as páginas com o focinho, muito habilmente.

Quando o reitor da universidade perguntou, algum tempo depois, como ia o burro com seus estudos, Tyl levou-o ao estábulo, onde colocou a gramática diante do animal. O burro começou, imediatamente, a virar as folhas, à procura da aveia.

- Como o senhor vê – disse Tyl – ele está lendo o livro, embora ainda não possa falar, a não ser as letras “a” e “e”.

Nesse momento, o burro, desapontado por não encontrar o seu alimento habitual, zurrou, melancolicamente: “EEEEEEAAAAAAA!”

O reitor deixou o estábulo quase convencido de que Tyl realmente estava ensinando o burro a falar.

Alguns dias depois o burro morreu de tão velho, o que, naturalmente, libertou Tyl do compromisso assumido.

Mudou-se ele, então, para outra cidade, mas, infelizmente, as coisas ali não lhe correram tão bem. O preguiçoso espertalhão de há muito não trabalhava, e suas roupas estavam tão desfiadas quanto o estômago estava desguarnecido. Assim, num dia de ventania, empregou-se como auxiliar de um padeiro. Pensava que trabalhando numa padaria pelo menos estaria aquecido, confortável, e teria bastante que comer.

Durante algum tempo seu patrão mostrou-se satisfeito com o trabalho dele, mas Tyl jamais podia conservar-se tranquilo por um prazo muito longo e depressa estava fazendo de novo suas trapaças.

Certa noite, o padeiro disse a Tyl que peneirasse um saco de farinha.

- Precisarei de uma vela para fazer esse trabalho, patrão – disse Tyl.

- Uma vela! - exclamou o padeiro, que era um grande avarento. - Ora, meu rapaz, bem podes peneirar a farinha à luz do luar.

- Está certo, patrão! - respondeu Tyl, com um brilho de malícia3 nos olhos.

Desceu à adega, apanhou o saco de farinha e uma peneira, e levou as duas coisas para o quartinho em que dormia. Abriu de par em par a janela. A lua cheia cintilava, bem brilhante, e a noite estava quase tão clara quanto o dia.

- Peneirar à luz do luar, hein? - murmurou Tyl. - Pois muito bem, seu unha-de-fome de uma figa. Aí vai!

Segurou a peneira do lado de fora da janela e peneirou a farinha, aos punhados, através dela. Estava fazendo exatamente o que lhe haviam ordenado, não estava? Peneirava a farinha à luz do luar...

Quando, na manhã seguinte, o padeiro abriu a janela de seu próprio quarto, pensou, de início, que havia nevado durante a noite. Mas que bom soco deu nos ouvidos de Tyl ao descobrir o que o velhaco fizera àquela boa farinha de trigo, espalhando-a por toda parte!

Depois disso, as coisas correram tranquilamente durante um certo tempo, até que Tyl começou de novo a ficar com vontade de fazer uma das suas.

Um dia, o padeiro lhe disse que ia a uma festa nupcial4. Tyl estivera esperando que o patrão consentisse que ele fosse também, mas o que recebeu foi uma ordem para ficar e tomar conta da padaria.

- A massa está pronta. Só tens de cozê-la – disse o padeiro.

Tyl, que sabia muito bem o que era necessário fazer, isto é, que devia fazer os pães de costume com aquela massa, perguntou, com ar inocente:

- De que jeito devo cozê-la, patrão?

O patrão, que já estava atrasado e impaciente, respondeu, saindo:

- Podes bem fazer gatos e cachorros!

Tyl , querendo uma oportunidade para se vingar do padeiro que o deixava trabalhando enquanto ia se divertir, resolveu seguir ao pé da letra as instruções dele.

Quando o padeiro voltou, encontrou a padaria cheia de gatos e cachorros! Tyl modelara a massa na forma daqueles animais e assim a levara ao forno.

Bem, o padeiro deu-lhe uma boa surra, declarando que ele teria de pagar pela massa perdida.

Ora, Tyl sabia que estavam em véspera de Natal, ou antes, como dizem lá, de São Nicolau. Pagou o valor da massa ao padeiro, colocou seus gatos e cachorros numa grande cesta e foi vendê-los diante da igreja. As pessoas, dispostas para festa, gostaram tanto dos modelos inesperados que num instante Tyl havia vendido tudo quanto trouxera, e com bom lucro.

Desde então, os padeiros de toda a Holanda modelam os pães no feitio de gatos e cachorros para o dia de São Nicolau. São animais feitos de pão de gengibre, que todos comem com café.


(Extraído do livro Lendas do Mundo Inteiro - Coleção Clássicos da Infância - Círculo do Livro)


1A figura de Tyl Uilenspiegel é popular nas lendas e contos holandeses, uma espécie do nosso Pedro Malasarte.

2 Não existindo imprensa nem rádio, os avisos tinham de ser dados ao povo por meio de arautos que levavam escrita a proclamação e liam-na nos cruzamentos das ruas, depois de terem atraído a atenção do povo com toques de clarim ou batidas de tambor. Os arautos também tinham o dever de proclamar a paz ou a guerra, de levar desafios para combates e portar mensagens de um soberano para outro.

3Maldade.

4De casamento.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Lá vem história outra vez...

Hoje é terça-feira, dia 11 de janeiro e, portanto, dia de história outra vez! Aí vai. Aproveite e comente ao final da leitura, ok? Nesta história há várias palavras que você, provavelmente, não conhece, então, ao final, nós colocamos o significado delas. Boa leitura!!!
Aguarde a próxima história na 3a. feira que vem!!!

O cameleiro espertinho

Quando Samussa, o cameleiro, sentiu chegar a morte, chamou à cabeceira o filho Kitir.

Você está sozinho no mundo e sem um tostão, meu pobre filho. Minha casa está caindo em ruínas, você sabe, e tive de vender meu rebanho para sobreviver. Só lhe deixo como herança um velho camelo, que só serve mesmo para melhorar a chorba1 do dia a dia. Portanto, siga o meu conselho: não fique aqui onde a miséria é muito grande. Vá procurar fortuna nas terras distantes, onde a vida é menos dura e o céu mais clemente.”

Como filho respeitoso, Kitir, que tinha catorze anos e era tão baixinho que não passava o tamanho de um narguilé2, fez o que o pai disse. Depois do enterro, montou no velho camelo e se juntou a uma caravana que atravessava o deserto em direção ao norte.

Após vários dias de marcha exaustiva sob um sol escaldante, os viajantes chegaram a um oásis onde montaram o acampamento. Enquanto todos se acotovelavam em torno do poço para beber água, Kitir viu um homem de barba branca sentado debaixo de uma palmeira, que olhava invejoso para eles.

Está com sede, vovô?”, ele lhe perguntou.

Minha boca está tão seca quanto a areia das colinas”, respondeu o velhinho.

Então me dê sua bilha3 para que eu vá enchê-la”.

O velho balançou tristemente a cabeça.

Ai de mim, ela está furada e não tenho outra.”

Diante de tanta miséria, o coração de Kitir encheu-se de pena.

Quer dividir a minha?, propôs.

E, sem esperar aquiescência4 aproximou sua bilha dos lábios do pobre homem e o fez beber.

Ora, o homem era um mágico que se apresentava sob essa aparência para testá-lo.

Sua generosidade acaba de salvá-lo, assim como aos seus companheiros de viagem”, ele disse ao rapaz. “Escute bem o que lhe digo: amanhã a caravana chegará a uma cidade chamada Kolkara, palavra que na língua berbere5, significa ”cidade do medo”. Vocês terão de atravessá-la para continuar o caminho. Ora, ela é guardada por um gigante de duas cabeças, sendo que uma olha para a esquerda e a outra para a direita a fim de que nada escape à sua vigilância. Esse gigante devora todos os que passam ao seu alcance, como demonstram os milhares de esqueletos que cobrem o chão em torno dele.”

Ao ouvir essas palavras, Kitir começou a tremer.

Não há nenhuma maneira de desviar a atenção dele?”, perguntou.

Só uma: apresentar-lhe uma adivinhação a qual ele não consiga responder.”

Infelizmente, não conheço nenhuma”, suspirou o rapaz.

O velho remexeu seus farrapos e deles tirou uma amêndoa seca.

O que há dentro dessa casca?, perguntou.

Uma fruta”, respondeu Kitir.

Não”, disse o velhinho, “pois há muito tempo os vermes a comeram.”

Então, vermes?”

Não, pois por falta de comida eles morreram e estão reduzidos a pó.”

Então, pó?”

Não, pois o tempo fez desaparecer.”

Kitir coçou a testa, perplexo.

Nesse caso, não há nada.”

Você se engana, 'nada' não existe.”

O rapaz, que não tinha outra ideia deu-se por vencido.

A resposta é: o escuro”, disse o velho.

E entregando-lhe a amêndoa, desapareceu.

No dia seguinte, a caravana chegou às portas de Kolkara e foi parada pelo gigante de duas cabeças. Dá para imaginar o terror de todos quando viram o monstro e os milhares de esqueletos que cobriam o chão em torno dele! Acreditando que a derradeira6 hora chegara, rezaram para Alá e pediram que os acolhesse em seu paraíso; foi quando Kitir se adiantou, brandindo7 a amêndoa.

O que há dentro desta casca?”, perguntou ao gigante.

Ele, que se preparava para devorar suas primeiras vítimas, logo as soltou.

Uma fruta”, respondeu.

Não”, disse Kitir “pois há muito tempo os vermes a comeram.”

Então, vermes?”

Kitir balançou a cabeça.

Não, pois por falta de comida eles morreram e foram reduzidos a pó”.

Então, pó?”

Não, pois o tempo o fez desaparecer.”

O gigante coçou as duas cabeças. Perplexo.

Nesse caso, não há nada.”

Você se engana: 'nada' não existe.”

O gigante refletiu e, em seguida, um largo sorriso iluminou seus dois rostos, mostrando dentes pontudos maiores que o dedo e todos vermelhos de sangue.

Já sei!”, gritou. “É o escuro!”

Esse monstro é mais esperto do que eu imaginava pensou com seus botões o astucioso8 Kitir. Mas para um esperto, esperto e meio!

Sua resposta está errada”, declarou.

Está certa”, protestou o gigante.

Vamos verificar!”

E quebrou a amêndoa.

Onde está o escuro?, perguntou.

Eu o vi fugir quando a luz entrou dentro da casca”, respondeu o gigante.

Então, encontre-o!”

O gigante começou a correr para um lado e para o outro, à procura do escuro perdido.

Ele se refugiou ali”, garantiu de repente, ao avistar um buraquinho no chão. “Vejo-o daqui, escondido no fundo!”

Se quiser que eu acredite, agarre-o e me mostre!”, disse Kitir.

Logo o gigante começou a encolher, encolher, até ficar do tamanho de um ratinho. Depois,pulou para dentro do buraco, que o rapaz tratou de tampar com uma grande pedra, prendendo-o assim nas entranhas da terra.

Logo em seguida, a Cidade do Medo, libertada de seu opressor, fez uma festa para os caravaneiros. Kitir foi carregado triunfalmente, e o rei dessa cidade, que não tinha filho, o adotou. Alguns anos depois o filho do cameleiro o sucedeu no trono e se revelou um soberano tão sábio que, sob seu reino, Kolkara mudou de nome e se tornou Abukara - o que, na língua berbere, significa “cidade da felicidade”.


(Conto das mil e uma noites, recontado por Gudule. Extraído do livro Contos e lendas das Mil e Uma Noites, da Companhia das Letras.)

1Sopa.

2Espécie de cachimbo.

3Vaso de barro com gargalo curto e estreito

4Concordância.

5Povo nômade da África.

6Última.

7Sacudindo.

8Que tem astúcia, esperteza.


segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Lá vem história...

Como prometemos, estamos postando hoje a primeira história do mês de janeiro. Terça-feira que vem tem mais! Aguarde!!!
Boa leitura e boas férias!!!

Não esqueça de postar sua opinião sobre a história lida depois, tá? É só clicar em comentários e escrever. Não esqueça de colocar seu nome e turma (em 2010), tá?


O galo e o rei

Era uma vez uma mulher que tinha um galo. Ela era tão pobre que não podia nem comprar uma galinha para fazer companhia a ele. Mas tratava muito bem o galo, preferindo passar fome a deixar de alimentá-lo.

Certo dia, quando ciscava pela rua, o galo achou uma bolsa repleta de moedas de ouro. “Vou levar esse tesouro à minha querida patroa”, pensou. Mas, no caminho de casa, encontrou o rei, que, ao ver a bolsa no seu bico, ordenou ao pajem:

- Apanhe já aquele galo para mim.

O pajem rapidamente pegou o galo e lhe arrancou a bolsa do bico entregando-a ao rei. O galo, furioso, disse consigo mesmo: “Amanhã irei até o palácio real. Tenho que recuperar a bolsa com o tesouro! Custe o que custar!”

No caminho para o palácio, o galo encontrou a raposa, que, ao saber do acontecido, se ofereceu para acompanhá-lo. Mas, pouco depois, a raposa sentiu-se cansada e o galo se propôs a carregá-la sob a asa. O galo e a raposa iam pela estrada quando encontraram uma abelha.

- Aonde vão vocês? - ela quis saber.

Quando o galo e a raposa lhe contaram sobre a bolsa roubada pelo rei, a abelha decidiu acompanhá-los. Mas logo se cansou de voar e pediu ao galo que a levasse debaixo de sua asa. Assim, o galo, a raposa e a a abelha prosseguiram viagem até que chegaram a um riacho.

-Aonde vão vocês? - quis saber o riacho. Quando lhe contaram sobre a bolsa roubada pelo rei, o riacho decidiu acompanhá-los, No meio do caminho ele se cansou e o galo o guardou debaixo da asa. Finalmente chegaram ao palácio.

- Vim recuperar a bolsa que Sua Majestade tirou de mim! - declarou o galo.

- Amanhã eu a devolvo – disse o rei e mandou-o para o galinheiro.

Acontece que as galinhas do rei tinham recebido ordens para matá-lo a bicadas. Avançaram contra o pobre galo, mas ele pediu:

- Socorro, raposa!

A raposa saiu de sob a asa do galo e rapidamente comeu as galinhas.

Quando o rei viu que o galo tinha sobrevivido, ficou furioso e investiu contra ele para matá-lo com as próprias mãos. Mas o galo pediu:

- Socorro, dona abelha!

A abelha saiu picando o rei que, chamando seus lacaios, gritou:

- Matem esse galo!

E o galo pediu:

- Socorro, meu amigo riacho!

O riacho saiu de sob a asa do galo, inundou o palácio e salvou a vida dele.

O rei percebeu que havia perdido a parada. Devolveu a bosa ao galo e o libertou.

O galo correu para sua dona e entregou-lhe o tesouro.

E foi assim que uma mulher tão pobre, que não podia nem comprar uma galinha, ficou muito rica com a ajuda de um galo que venceu um rei com a ajuda de uma abelha, uma raposa e um riacho!


(História do folclore francês – recontada por Heloísa Prieto. Extraída do livro Lá vem história, da Companhia das Letrinhas)

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Quem é o rei?


Esta é a história de um camponês

que de tão pobre

estava só pele e osso

um dia, sentado à porta de sua

velha cabana, viu chegar um caçador

montado num cavalo.

O caçador parou,

Apeou do cavalo,

Cumprimentou-o e disse:

— Perdi-me na floresta

e estou procurando o caminho

que leva à cidade de Gondar.

— Gondar fica a dois dias de viagem —

respondeu o camponês. -— O sol já se pôs, seria

mais prudente passar a noite aqui

e prosseguir amanhã de manhã.


O camponês tinha uma galinha tão

magricela quanto ele. Matou-a e a cozinhou

para oferecer um bom jantar ao caçador.

Ofereceu-lhe ainda sua cama.


De manhãzinha, quando o homem despertou, o

camponês explicou a ele como chegar a Gondar:

Você deve contornar a floresta,

evitar as pedreiras,

afastar-se dos precipícios,

não se perder, seguir a estrada,

tomar um atalho...


O caçador ficou preocupado:


— Pressinto que vou

me perder novamente.

Não conheço a região. Você não poderia me

acompanhar até Gondar?

É só montar na garupa.


— Está bem — disse o camponês —,

mas sob uma condição:

quando lá chegarmos, você poderia

me apresentar ao rei,

que eu nunca vi em toda minha vida?


— Você o verá,

prometo a você.


Nosso homem fechou a porta da casa,

montou na garupa e lá se foram pela estrada.

viajaram muito, por muito tempo.

Quando avistaram Gondar,

o camponês perguntou ao caçador:


— Como se faz para

reconhecer o rei?

— Não se preocupe. Lembre-se

apenas disto: enquanto todos fazem a mesma coisa

ao mesmo tempo, o rei é o único diferente.

Observe bem as pessoas ao redor

e assim o reconhecerá.


Uma hora mais tarde, os dois homens

chegaram às imediações do palácio.

Uma multidão se apinhava

diante dos portões.

Todos falavam e comentavam

as notícias do reino.

Quando viram os dois homens a cavalo,

afastaram-se do portão.

e se ajoelharam.

O camponês não entendeu nada.

Todos se ajoelharam, menos ele e o caçador, que

estavam a cavalo.


— Onde pode estar o rei? — perguntou o

Camponês. — Não o vejo.


— Vamos entrar no palácio e

lá você o verá — assegurou o caçador.


E os dois homens entraram

a cavalo no palácio.


O camponês estava preocupado.

Ao longe, viu uma fileira de guardas montados,

que os esperavam na entrada.

Os guardas desceram dos cavalos.

Ficaram todos a pé. Apenas ele

e o caçador continuaram a cavalo.


O camponês irritou-se:

— Você me disse: quando todo mundo

fizer a mesma coisa...

Onde está o rei?

— Paciência.

Você vai reconhecê-lo,

lembre-se apenas disto:

enquanto todos fizerem a mesma coisa

ao mesmo tempo, o rei fará diferente.


O camponês ficou mais perplexo do que nunca.

— Quem pode ser o rei?

Ainda não consigo vê-lo.


Os dois homens apearam também.

Entraram numa sala imensa do palácio.

Todos os nobres, cortesãos e conselheiros

tiraram o chapéu

quando os viram. Ficaram todos

de cabeça descoberta, exceto o caçador

e o camponês, que não sabia por que usavam chapéu

ali dentro do palácio.


O camponês se aproximou do caçador

e murmurou:

— Não estou vendo o rei.

— Não seja impaciente.

Quando todo mundo faz

a mesma coisa ao mesmo tempo,

o rei é diferente.

Logo você acabará por

reconhecê-lo.

Venha se sentar.


Os dois homens se instalaram

num sofá confortável.

Todos ficaram de pé

em volta deles.

O camponês não parava quieto.

Olhou ao redor, aproximou-se

do caçador e perguntou:

— Quem é o rei?

É você ou

sou eu?


O caçador soltou uma gargalhada e disse:

— Você tem razão,

eu sou o rei.

Mas você também

é um rei,

Pois soube acolher um estranho.


Como esta história,

A amizade deles durou muito tempo,

Uma amizade real.

E eis aqui o final.

Tchau!


(extraído de O príncipe corajoso e outras histórias da Etiópia, Praline Gay-Para, São Paulo, Comboio de corda, 2007.)

Gondar: antiga capital do império da Etiópia, situada a nordeste do lago Tana. Foi ocupada pelos italianos entre meados de 1930 até 1941, ano em que os britânicos a bombardearam. A cidade abriga ruínas do período imperial, bem como vestígios de arquitetura fascista.
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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O rei que não sabia ser feliz


Era um rei que não sabia ser feliz. Tinha os tesouros mais preciosos, as terras mais férteis e os exércitos mais poderosos. Morava num castelo prateado construído no alto de uma montanha. Mesmo assim, vivia triste, sombrio e amargurado.
Um belo dia, o tal monarca ouviu falar de um ferreiro muito pobre que morava num castelo com a mulher e um casal de filhos. O povo dizia que o sujeito, mesmo miserável e sem ter onde cair morto, vivia sempre risonho e animado. Anunciava e garantia para quem quisesse ouvir que era muito feliz. O rei não quis acreditar.
- Se eu que sou nobre, rico e poderoso vivo aflito, preocupado e cheio de problemas, como é que pode um zé-ninguém, um pé-rapado, um pobre coitado achar que pode ser feliz?
No fundo, o monarca sentiu uma mistura de raiva com dúvida e inveja. E logo teve uma idéia. Montou seu cavalo alazão, foi até a casa do ferreiro,mandou chamar o homem e disse:
- É verdade que você é feliz?
- Sim! – respondeu o ferreiro com os olhos cheios de luz.
- Ah é? – respondeu o rei. – Então, quero ver se você adivinha:
É, o que é:
tem no começo da rua
vive na ponta do ar
dobra no meio da terra
morre onde acaba o mar?

O rei explicou que voltaria no dia seguinte. Se o ferreiro não adivinhasse ia para a forca.
- E se eu adivinhar? – perguntou o ferreiro, assustado.
- Se adivinhar, fica tudo por isso mesmo!
Disse isso, deu risada, chicoteou o cavalo e partiu a galope.
Naquela noite, a filha do ferreiro sentiu que o pai estava muito preocupado. Conversa vai, conversa vem, o homem acabou desabafando e contando o que havia acontecido. Confessou que não sabia adivinhar. Achava que no dia seguinte ia morrer na forca. A filha do ferreiro deu risada.
- Mas é tão simples! Aquilo que tem no começo da rua, vive na ponta do ar, dobra no meio da terra e morre onde acaba o mar é a letra R!
No dia seguinte, o ferreiro respondeu a adivinha e deixou o rei admirado.
- Mas como você adivinhou?
- Não fui eu – respondeu o homem sorrindo. – Foi minha filha!
O rei não se conformou:
- Ah é? Então mata esta:

O que é, o que é:
agarra, coça e atira
escreve, pinta e inventa
aperta, aponta e dá soco
faz carinho e cumprimenta?

E repetiu o que havia dito da outra vez. Se o ferreiro adivinhasse, ficava tudo por isso mesmo. Se não adivinhasse, forca.
Naquela noite, a filha sentiu que o pai estava, de novo, muito aflito. Conversa vem, conversa vai, o homem acabou contando o que havia acontecido. Disse que não sabia adivinhar. Chorou. Achava que dessa vez ia mesmo morrer na forca. A filha do ferreiro deu risada.
- Mas é tão simples! Aquilo que agarra, coça e atira, escreve, pinta, inventa, aperta, aponta, dá soco, faz carinho e cumprimenta e a mão!
No dia seguinte, o ferreiro respondeu a adivinha e deixou o monarca com a cara no chão.,
- Mas como você adivinhou?
- Não fui eu – respondeu sorrindo. – Foi minha filha!
O rei foi embora pensando:
- Como será a filha do ferreiro?
Chegou no castelo e logo fez um plano. Mandou um criado à casa do ferreiro com um monte de perguntas. Queria dados, detalhes e informações a respeito da moça.
O criado foi. Bateu na porta. Quem atendeu foi a própria filha do ferreiro.
O criado perguntou:
- Cadê sua mãe?
E a moça:
- Foi ver quem nunca foi visto.
E o criado:
- Cadê seu pai?
E a moça:
- Foi mijar pra trás.
E o criado:
- Cadê seu irmão?
E a moça:
- Foi tomar água que passarinho não bebe.
O criado do rei não entendeu nada, despediu-se e foi embora. Quando contou as respostas da filha do ferreiro, o rei ficou admirado:
- Mas é claro como um copo d’água! Se a mãe dela foi ver que nunca foi visto é porque deve ser parteira e foi ajudar uma criança a nascer. Se o pia foi mijar pra trás é porque deve ter desistido de algum negócio.
Se o irmão foi tomar água que passarinho não bebe é porque deve estar bebendo cachaça com os amigos.
O rei era solteiro. Encantado com as respostas da moça, sentiu vontade de conhecê-la melhor. Deu ordens para irem buscá-la imediatamente.
Dito e feito.
Quando a filha do ferreiro em carne e osso, o tal monarca ficou mais encantado ainda. È que a moça era uma fruta preciosa de tão bonita e cheirosa.
O rei, então, pegou-a pelo braço e saiu mostrando os ares, belezas e lugares do castelo. Mas tarde, o casal sentou-se no jardim para trocar idéias e se conhecer melhor. Conversa vem conversa vai, o rei ficou apaixonado de vez. No fim daquele mesmo dia, pediu a mão da moça em casamento.
A filha do ferreiro aceitou e o jovem monarca foi logo mandando preparar a festa, avisar o padre e escrever os convites. Depois, chamou a moça e avisou:
- Decidi me casar com você amanhã mesmo! Como vai ser minha mulher, quero que você hoje volte para casa levando de presente a coisa mais valiosa que encontrar no castelo. Pode pegar o que quiser: pedras preciosas, anéis e colores de diamantes ou arcas cheias de moedas de ouro. De agora em diante, tudo o que é meu é seu!
A moça sorriu agradecida.
- Prometo escolher uma coisa bem valiosa – disse ela -, mas antes queria tomar um pouco de vinho tinto.
Explicou que era para brindar o casamento mas, quando o rei se distraiu, colocou sete gotas de remédio no cálice. Bastou um gole para o monarca ficar zonzo, meio grogue, fechar os olhos e cair desmaiado com um sorriso parado no rosto.
Mais que depressa, a filha do ferreiro chamou os criados, mandou colocar o noivo numa carruagem, disse adeus e levou-o embora .
No dia seguinte, quando o rei acordou, não entendeu nada vezes nada.
- Quem sou eu? Onde estou? O que houve? Como assim? – gritava ele entre zangado e assustado. E depois; - Socorro! Me acudam! Fui seqüestrado!
Gritou e esperneou mas, olhando melhor, reconheceu o lugar e descobriu que tinha passado a noite na casa do ferreiro.
Foi quando a moça entrou no quarto e explicou tudo;
- Você não disse que eu poderia trazer a coisa mais valiosa do castelo?
O monarca fez sim com a cabeça. E a filha do ferreiro;
- Pois bem. Pra mim, a coisa mais valiosa do castelo é você mesmo!
A ouvir aquelas palavras, o rei até inchou de tanta vaidade. Mas a alegria durou pouco. Fazendo cara feia, a moça continuou;
- Só caso com você se pedir desculpas a meu pai. Onde já se viu ameaçar de levar alguém pra forca só por causa de um capricho? Não quero saber de marido egoísta e invejoso que só sabe pensar em si mesmo e não liga pra mais ninguém! Quero me casar com um rei que tente melhorar, e não piorar, a vida de seu povo!
Pego de surpresa, o monarca deu o braço a torcer, vestiu a carapuça e reconheceu que tinha errado feio. Chamou o pai da noiva, ajoelhou-se arrependido e pediu perdão.
Dizem que o casamento do rei com a filha do ferreiro foi uma festança cheia de dança, comilança e esperança. Dizem também que só então aquele homem soube o que era ser feliz.

(extraído de Contos de Adivinhação, Ricardo Azevedo, Ed. Ática,2008)































terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Alecrina

Era uma vez um rei e uma rainha que não tinham filhos. Passeando na horta, a rainha viu um pé de alecrim rodeado de mudinhas. E disse:
- Dê uma olhada: aquele ali é apenas um pé de alecrim e tem tantos filhos, e eu que sou rainha não tenho nem mesmo um!
Passado algum tempo, a rainha também se tornou mãe. Mas não teve um filho, e sim um pé de alecrim. Colocou-o num bonito vaso e o regava com leite.
Um sobrinho, que era rei da Espanha, veio visitá-lo e perguntou:
- Majestade tia, que planta é esta?
A tia lhe respondeu:
- Majestade sobrinho, é minha filha, e a rego com leite quatro vezes por dia.
O sobrinho gostou tanto da planta que pensou em raptá-la. Pegou-a com vaso e tudo, e a levou para a sua embarcação, comprou uma cabra leiteira e mandou levantar âncora. Navegando, ordenhava a cabra e dava leite ao pé de alecrim quatro vezes por dia. Assim que desembarcou em sua cidade, mandou plantá-lo no seu jardim.
Esse jovem rei da Espanha tinha uma grande paixão por flauta e, todos os dias, andava pelo jardim tocando flauta e dançando. Tocava flauta e dançava, quando , do meio da folhagem do alecrim, apareceu uma linda mocinha de cabelos compridos que se pôs a dançar ao lado dele.
- De onde vem? – perguntou-lhe ele.
- Do alecrim – respondeu ela.
E, terminada a dança, retornou à folhagem do alecrim e não se deixou mais ver. Daquele dia em diante, o rei despachava às presas os negócios do Estado e ia para o jardim com a flauta, tocava e a linda mocinha saía do meio das folhas, e juntos dançavam e conversavam de mãos dadas.
No melhor do namoro, o rei recebeu uma declaração de guerra e teve de partir. Disse à mocinha:
- Minha Alecrina, não sai da sua planta enquanto eu não voltar. Quando voltar, tocarei três notas na flauta e então você sairá.
Chamou o jardineiro e lhe disse que o pé de alecrim precisava ser regado com leite quatro vezes por dia; e, se na volta o encontrasse murcho, mandaria decapitá-lo. E partiu.
É preciso saber que o rei tinha três irmãs, moças curiosas que havia um bom tempo se perguntavam o que andaria fazendo o irmão horas seguidas no jardim com a flauta. Assim que ele partiu para a guerra, foram vasculhar seu quarto e encontraram a flauta. Pegaram-na e foram até o jardim. A mais velha tentou tocá-la e saiu uma nota, a segunda a tirou da mão dela, soprou e emitiu outra nota, e a caçula, por sua vez, tocou uma nota ela também. Ouvindo as três notas e pensando que o rei tivesse regressado, Alecrim pulou para fora das folhas. As irmãs:
- Ah! Agora entendemos por que nosso irmão não saía mais do jardim! – E, malvadas como eram, agarraram a mocinha e bateram nela quanto puderam. Aquela infeliz, mais morta que viva, correu para seu alecrim e desapareceu.
Quando o jardineiro veio, encontrou a planta meio murcha, com as folhas amareladas e pendentes.
- Ai, pobre de mim! O que vou fazer quando o rei vier!
Correu até sua casa e disse à mulher:
- Adeus, tem que fugir, você passa a regar o alecrim com leite. – E fugiu.
O jardineiro caminhou pelo campo a mais não poder. Quando anoiteceu, estava num bosque. Com medo dos bichos, trepou numa árvore. À meia-noite, sob aquela árvore, haviam marcado encontro uma Mamãe-Dragona e um Mamo-Dragão. E o jardineiro, escondido em cima da árvore, arrepiava-se ouvindo-os bufar.
- Quais são as novidades? – perguntou Mamãe-Dragona ao Mamo-Dragão.
- E quais queria que fossem?
- Você nunca me conta nada de novo!
- Ah, sim, o pé de alecrim do rei murchou.
- E como isso aconteceu?
- Aconteceu assim: agora que o rei está na guerra, as irmãs começaram a tocar a flauta e, do alecrim saiu a moça encantada, e as irmãs a deixaram mais morta que viva de tantas pancadas. Assim, a planta está murchando.
- E não há meio de salvá-la?
- Até que haveria...
- E por que não me conta?
- Bem, não é coisa que se diga: as árvores têm olhos e ouvidos.
- Deixe disso; quem é que nos ouviria no meio do bosque?
- Então vou lhe contar este segredo: seria preciso pegar o sangue da minha garganta e a gordura do seu cangote, fervê-los juntos numa panela,e untar todo o pé de alecrim. A planta vai secar completamente, mas a moça sairá dela sã e salva.
O jardineiro ouvira toda a conversa com o coração nas mãos. Assim que Mamo-Dragão e a Mamãe-Dragona adormeceram e ele ou ouviu roncar, arrancou um galho nodoso, pulou no chão e com dois golpes certeiros os mandou para o outro mundo. Depois, retirou o sangue da garganta do Mamo-Dragão, a gordura do cangote da Mamãe-Dragona e correu para casa.Acordou a mulher e:
- Rápido, ferve estas coisas!- E untou o alecrim raminho por raminho. A moça saiu e o alecrim secou. O jardineiro pegou a moça pela mão e a levou para sua casa, colocou-a na cama e lhe deu um bom caldo de sopa.
O rei volta da guerra e, antes de mais nada, vai até o jardim com a flauta. Toca três notas, toca três , e haja fôlego para assoviar! Aproxima-se do alecrim e o encontra sequinho seu uma única folha.
Furioso como uma fera, correu à casa do jardineiro.
- Hoje mesmo será decapitado, desgraçado!
- Majestade, acalme-se, entre um instante em minha casa e lhe mostro uma coisa maravilhosa!
- Coisa maravilhosa um corno! Você será decapitado!
- Primeiro entre, depois faça o que quiser comigo!
O rei entrou e encontrou Alecrina deitada, pois ainda estava em convalescença. Ela ergueu a cabeça e lhe disse, como lágrimas nos olhos:
Suas irmãs me espancaram, e o pobre Jardineiro salvou minha vida!
O rei estava transbordado de felicidade por ter reencontrado Alecrina, com ódio das irmãs, muito agradecido ao jardineiro. Tão logo a moça se restabeleceu, quis casar com ele, e escreveu ao rei seu tio que o alecrim que ele roubara havia se transformado numa lindíssima jovem e o convidava, e também à rainha, para o dia do casamento. O rei e a rainha, que estavam desesperados por não saber nada da planta, quando o embaixador levou aquela carta para eles e souberam que a planta era na realidade uma linda moça, filha deles, ficaram como loucos de alegria. Partiram imediatamente e, bum! bum!, dispararam muitas salvas de canhão ao chegar ao ponto, e Alecrina já estava lá esperando pelos pais. Celebrou-se o casamento e foi feito um banquete com uma mesa do tamanho da Espanha.

(extraído de Fábulas Italianas, Ítalo Calvino, Cia de Bolso,2006)