terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Alecrina

Era uma vez um rei e uma rainha que não tinham filhos. Passeando na horta, a rainha viu um pé de alecrim rodeado de mudinhas. E disse:
- Dê uma olhada: aquele ali é apenas um pé de alecrim e tem tantos filhos, e eu que sou rainha não tenho nem mesmo um!
Passado algum tempo, a rainha também se tornou mãe. Mas não teve um filho, e sim um pé de alecrim. Colocou-o num bonito vaso e o regava com leite.
Um sobrinho, que era rei da Espanha, veio visitá-lo e perguntou:
- Majestade tia, que planta é esta?
A tia lhe respondeu:
- Majestade sobrinho, é minha filha, e a rego com leite quatro vezes por dia.
O sobrinho gostou tanto da planta que pensou em raptá-la. Pegou-a com vaso e tudo, e a levou para a sua embarcação, comprou uma cabra leiteira e mandou levantar âncora. Navegando, ordenhava a cabra e dava leite ao pé de alecrim quatro vezes por dia. Assim que desembarcou em sua cidade, mandou plantá-lo no seu jardim.
Esse jovem rei da Espanha tinha uma grande paixão por flauta e, todos os dias, andava pelo jardim tocando flauta e dançando. Tocava flauta e dançava, quando , do meio da folhagem do alecrim, apareceu uma linda mocinha de cabelos compridos que se pôs a dançar ao lado dele.
- De onde vem? – perguntou-lhe ele.
- Do alecrim – respondeu ela.
E, terminada a dança, retornou à folhagem do alecrim e não se deixou mais ver. Daquele dia em diante, o rei despachava às presas os negócios do Estado e ia para o jardim com a flauta, tocava e a linda mocinha saía do meio das folhas, e juntos dançavam e conversavam de mãos dadas.
No melhor do namoro, o rei recebeu uma declaração de guerra e teve de partir. Disse à mocinha:
- Minha Alecrina, não sai da sua planta enquanto eu não voltar. Quando voltar, tocarei três notas na flauta e então você sairá.
Chamou o jardineiro e lhe disse que o pé de alecrim precisava ser regado com leite quatro vezes por dia; e, se na volta o encontrasse murcho, mandaria decapitá-lo. E partiu.
É preciso saber que o rei tinha três irmãs, moças curiosas que havia um bom tempo se perguntavam o que andaria fazendo o irmão horas seguidas no jardim com a flauta. Assim que ele partiu para a guerra, foram vasculhar seu quarto e encontraram a flauta. Pegaram-na e foram até o jardim. A mais velha tentou tocá-la e saiu uma nota, a segunda a tirou da mão dela, soprou e emitiu outra nota, e a caçula, por sua vez, tocou uma nota ela também. Ouvindo as três notas e pensando que o rei tivesse regressado, Alecrim pulou para fora das folhas. As irmãs:
- Ah! Agora entendemos por que nosso irmão não saía mais do jardim! – E, malvadas como eram, agarraram a mocinha e bateram nela quanto puderam. Aquela infeliz, mais morta que viva, correu para seu alecrim e desapareceu.
Quando o jardineiro veio, encontrou a planta meio murcha, com as folhas amareladas e pendentes.
- Ai, pobre de mim! O que vou fazer quando o rei vier!
Correu até sua casa e disse à mulher:
- Adeus, tem que fugir, você passa a regar o alecrim com leite. – E fugiu.
O jardineiro caminhou pelo campo a mais não poder. Quando anoiteceu, estava num bosque. Com medo dos bichos, trepou numa árvore. À meia-noite, sob aquela árvore, haviam marcado encontro uma Mamãe-Dragona e um Mamo-Dragão. E o jardineiro, escondido em cima da árvore, arrepiava-se ouvindo-os bufar.
- Quais são as novidades? – perguntou Mamãe-Dragona ao Mamo-Dragão.
- E quais queria que fossem?
- Você nunca me conta nada de novo!
- Ah, sim, o pé de alecrim do rei murchou.
- E como isso aconteceu?
- Aconteceu assim: agora que o rei está na guerra, as irmãs começaram a tocar a flauta e, do alecrim saiu a moça encantada, e as irmãs a deixaram mais morta que viva de tantas pancadas. Assim, a planta está murchando.
- E não há meio de salvá-la?
- Até que haveria...
- E por que não me conta?
- Bem, não é coisa que se diga: as árvores têm olhos e ouvidos.
- Deixe disso; quem é que nos ouviria no meio do bosque?
- Então vou lhe contar este segredo: seria preciso pegar o sangue da minha garganta e a gordura do seu cangote, fervê-los juntos numa panela,e untar todo o pé de alecrim. A planta vai secar completamente, mas a moça sairá dela sã e salva.
O jardineiro ouvira toda a conversa com o coração nas mãos. Assim que Mamo-Dragão e a Mamãe-Dragona adormeceram e ele ou ouviu roncar, arrancou um galho nodoso, pulou no chão e com dois golpes certeiros os mandou para o outro mundo. Depois, retirou o sangue da garganta do Mamo-Dragão, a gordura do cangote da Mamãe-Dragona e correu para casa.Acordou a mulher e:
- Rápido, ferve estas coisas!- E untou o alecrim raminho por raminho. A moça saiu e o alecrim secou. O jardineiro pegou a moça pela mão e a levou para sua casa, colocou-a na cama e lhe deu um bom caldo de sopa.
O rei volta da guerra e, antes de mais nada, vai até o jardim com a flauta. Toca três notas, toca três , e haja fôlego para assoviar! Aproxima-se do alecrim e o encontra sequinho seu uma única folha.
Furioso como uma fera, correu à casa do jardineiro.
- Hoje mesmo será decapitado, desgraçado!
- Majestade, acalme-se, entre um instante em minha casa e lhe mostro uma coisa maravilhosa!
- Coisa maravilhosa um corno! Você será decapitado!
- Primeiro entre, depois faça o que quiser comigo!
O rei entrou e encontrou Alecrina deitada, pois ainda estava em convalescença. Ela ergueu a cabeça e lhe disse, como lágrimas nos olhos:
Suas irmãs me espancaram, e o pobre Jardineiro salvou minha vida!
O rei estava transbordado de felicidade por ter reencontrado Alecrina, com ódio das irmãs, muito agradecido ao jardineiro. Tão logo a moça se restabeleceu, quis casar com ele, e escreveu ao rei seu tio que o alecrim que ele roubara havia se transformado numa lindíssima jovem e o convidava, e também à rainha, para o dia do casamento. O rei e a rainha, que estavam desesperados por não saber nada da planta, quando o embaixador levou aquela carta para eles e souberam que a planta era na realidade uma linda moça, filha deles, ficaram como loucos de alegria. Partiram imediatamente e, bum! bum!, dispararam muitas salvas de canhão ao chegar ao ponto, e Alecrina já estava lá esperando pelos pais. Celebrou-se o casamento e foi feito um banquete com uma mesa do tamanho da Espanha.

(extraído de Fábulas Italianas, Ítalo Calvino, Cia de Bolso,2006)

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Aguarde a próxima história na 3a. feira que vem!!!

E então, gostou da história da loira do banheiro? Pois é, essa história foi ouvida em São Paulo e quem contou foi Lauro da Cruz Correa.

Na terça-feira que vem você vai ler uma história de encantamento muito interessante que foi coletada por Ítalo Calvino e consta de seu livro " Fábulas Italianas". Não deixe de acessar e se deliciar com essa bela história!!! Até lá!

A loira do banheiro

Na vida, tenho duas paixões: literatura e cinema.
Quando era menino, eu queria ser ator, trabalhar em filmes de aventuras, fazer papel de astronauta, de soldado, tudo que envolvesse muito perigo.
Mas eu nasci no interior de São Paulo. Difícil realizar um sonho desses.
Quando eu tinha dezessete anos, comecei a ler histórias de terror. Conheço todos os grandes mestres do suspense: Edgar Allan Poe é meu preferido, em segundo lugar está Bram Stoker, criador de Drácula.
Durante vários anos vivi todas as emoções mais intensas, o medo, o amor, o perigo, lendo livros ou sentado no cantinho escuro de um cinema.
Sou um cara de sorte. Trabalho com aquilo que mais gosto: livros. Atuo como divulgador de uma grande editora. Percorro as escolas mostrando os lançamentos, contando as histórias, enfim, sou pago para ler, veja só.
E sempre que eu tentava vender uma boa história de fantasmas, depois fechava o livro aliviado e comentava com os professores: escritores têm tanta imaginação... Já pensou se tudo isso fosse verdade?
Até o dia em que descobri que o mistério nos ronda, nos assombra, também fora dos livros e dos filmes.
E se os fantasmas existirem?
Afinal, há histórias assim no mundo todo...
Essa dúvida me persegue e tudo começou por causa de uma história que me foi contada por três garotos apavorados.
Eu caminhava pelos corredores de uma escola levando meus livros, minha maleta com os catálogos editoriais, os braços repletos de panfletos anunciando os lançamentos.
Vi a porta do banheiro masculino abrir-se com toda violência. Dela saíram três jovens de mais ou menos dezessete anos de idade. Cabelos molhados, respiração ofegante, o rosto em pânico. Aquilo despertou minha curiosidade.
Na saída da escola, encontrei um deles, Ricardo era seu nome. Normalmente sou muito discreto, mas a curiosidade me matava.
- Vem cá, me conte, por que foi que vocês saíram correndo daquele jeito? Viram alguma assombração?
Ele custou um tempo para responder. Mas de repente disse bem baixinho:
- Mas eu vi mesmo, eu vi um fantasma.
- Que fantasma, garoto? Você está passando bem? Quer que eu chame sua professora?
- Não, escuta, eu só vou contar pro senhor, depois eu quero esquecer.
-Então conte, mas é melhor sair daqui, do meio do corredor.
Fomos até o pátio, o garoto respirou fundo e começou a me contar:
- Bom, o negócio começou assim: eu tenho mais dois amigos. Eu sou o Rico, depois vem o Betão. O Betão é cético. Ele tem que ver para crer. Só que ele nunca vê nada. Aliás, ele vê sim. Garotas. O cara é magrinho, tropeça em tudo, mas faz o maior sucesso. Dá raiva, até. Bom, tem também o João. Ele ri muito, é o contrário do Beto, acredita em tudo que se fala. Chupa-cabra, ET de Varginha, Loira do Banheiro e daí vai.
- E você? É cético ou crédulo? – perguntei, achando engraçado o jeito do menino.
Eu? Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, como dizia minha avó. Eu acredito e não acredito. Não vou dizer que preciso ver para crer, porque dá de ver...
- E você já viu alguma coisa estranha, certo?- Sugeri.
- Certo. Foi assim: nós três estávamos no banheiro falando das meninas. O único de nós que já teve namorada foi o Beto, claro. O João estava sentado no chão. E eu estava louco da vida. Tinha levado um fora de uma garota. Foi então que tive uma idéia. Era maligna, agora eu sei. Até hoje me arrependo. Mas quando vi, já tinha falado “E se a gente chamasse a tal da Loira do Banheiro?” O senhor já ouviu falar?
-Não – respondi, achando aquela conversa engraçada.
- É uma loira fantasma. Ela aparece para quem invoca seu nome.
- Vai me dizer que ela apareceu para vocês – eu disse, incrédulo.
- Bem, nós fizemos tudo que era preciso: bater três vezes no espelho, falando bem baixo, com voz apaixonada, loira, loira, loira, depois a gente deu descarga três vezes e três pulinhos ridículos. Mas eu estava tão bravo naquele dia... resolvi fazer palhaçada, pensava que era só brincadeira.



Mas não era, não.
Lembro de tudo até hoje.
Corri para o espelho.
Beijei minha boca.
Sussurrei: loira, loirinha, vem cá...
Meus amigos morriam de rir.
Fizeram igual.
Depois, todos nós demos três descargas.
Ríamos tanto que a barriga dia.
Depois demos os três pulinhos.
Foi nisso que apareceu o diretor.
Resultado: suspensão para todos nós.
Na volta para casa, meus amigos estavam muitos bravos comigo.
De repente, eu vi. Uma loira linda. Atravessando a rua.
- A loira! – gritei.
- Você está louco? Essa loira é gente, não é fantasma coisa nenhuma! – o João falou
Do outro lado da calçada, a loira caminhava, sorria e acenava de longe. Quase desmaiei. Só não desmaiei porque apareceu outra loira. É isso mesmo. Eu ia gritar, mas daí surgiu a última loira. Idêntica. Loiras trigêmeas. Uma para cada um de nós.
Bom, atravessamos a rua feito loucos. As loiras nos acenavam do outro lado. Nem vimos os carros, nem ouvimos a buzina, nem o ruído do breque.
Quando acordamos, estávamos no hospital. Uma maca ao lado da outra. Todos nós machucados, braços, perna na tipóia.
De repente, Betão estendeu a mão para o espelho do quarto do hospital e gritou assim:
- Olha lá as loiras!
Eu olhei. Antes não tivesse olhado.
As trigêmeas. Lindas. Idênticas. Uma para cada um de nós.
Sabe onde?
Dentro do espelho.
Acenando adeus. Rindo.
Desmaiamos outra vez.
É por isso que nunca vamos ao banheiro sozinhos, de jeito nenhum. E se ela aparecer?

Quando o menino acabou sua história, levantou-se e foi embora rapidamente.
Fiquei pensando, essa história dava um bom conto de terror, a garotada inventa cada coisa para acabar com o tédio... Loira do Banheiro!
Mas, naquela noite, sonhei com lindas loiras fantasmagóricas, dançando nos reflexos dos espelhos, na tela da televisão...
Acordei pensando que aquilo já estava virando um exagero. Afinal, era só um desses casos malucos, bobagem de criança.
Acontece que, daquele dia em diante, cada vez que entro no banheiro de uma escola, lembro-me da Loira Fantasma.
Confesso que, ao longo do tempo, encontrei várias outras crianças assustadas com essa mesma assombração. Parece epidemia. Um medo que contagia. É, porque aos poucos, vou ser sincero, eu também comecei a sentir medo. Mesmo sendo um adulto, mesmo conhecendo tantas histórias e tantos filmes de terror, há dias em que entro no banheiro bem rápido, lavo as mãos sem olhar para o espelho e, quando fecho a porta, respiro bem aliviado.
E se for tudo verdade?
E se os fantasmas existirem?
Como é que ficam os vivos?
Uma coisa eu sei.
Depois da Loira, todas as outras histórias viraram bobagem, invenção de escritor.

(extraído de A loira do banheiro e outras histórias de Heloisa Prieto; Editora Ática, 2008.)

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Fim de ano, Natal e férias

Pois é, gente, 2008 foi um ano de muito trabalho e novidades por aqui... Este blog é a maior prova disso. Agora vamos dar uma parada pra descansar e recarregar as baterias que em 2009 tem muito mais.

Desejamos a todos boas férias, feliz Natal e um ano de 2009 cheinho de coisas boas e histórias para contar e ouvir!

Aproveitamos para avisar que no início de janeiro, mais precisamente no dia 06, vamos ter uma história arrepiante aqui no blog. E a partir desse dia, nas outras terças-feiras de janeiro você vai encontrar uma nova história para ler aqui. Aproveite! E até a volta em fevereiro!!!

Boas leituras para todos!!!!

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Nossa escola, nossos alunos

Já aconteceram há algum tempo, em outubro... Nós queríamos mostrar logo, mas não tínhamos conseguido ainda...Mas, como foram muito legais, não queríamos deixar de colocar no nosso blog... Será que você já sabe o que é? Não?

Foram a apresentação do Coral do Pedrinho e da peça Os Saltimbancos, de alunos de nosso colégio. Veja como foram apresentações maravilhosas!