terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Quem é o rei?


Esta é a história de um camponês

que de tão pobre

estava só pele e osso

um dia, sentado à porta de sua

velha cabana, viu chegar um caçador

montado num cavalo.

O caçador parou,

Apeou do cavalo,

Cumprimentou-o e disse:

— Perdi-me na floresta

e estou procurando o caminho

que leva à cidade de Gondar.

— Gondar fica a dois dias de viagem —

respondeu o camponês. -— O sol já se pôs, seria

mais prudente passar a noite aqui

e prosseguir amanhã de manhã.


O camponês tinha uma galinha tão

magricela quanto ele. Matou-a e a cozinhou

para oferecer um bom jantar ao caçador.

Ofereceu-lhe ainda sua cama.


De manhãzinha, quando o homem despertou, o

camponês explicou a ele como chegar a Gondar:

Você deve contornar a floresta,

evitar as pedreiras,

afastar-se dos precipícios,

não se perder, seguir a estrada,

tomar um atalho...


O caçador ficou preocupado:


— Pressinto que vou

me perder novamente.

Não conheço a região. Você não poderia me

acompanhar até Gondar?

É só montar na garupa.


— Está bem — disse o camponês —,

mas sob uma condição:

quando lá chegarmos, você poderia

me apresentar ao rei,

que eu nunca vi em toda minha vida?


— Você o verá,

prometo a você.


Nosso homem fechou a porta da casa,

montou na garupa e lá se foram pela estrada.

viajaram muito, por muito tempo.

Quando avistaram Gondar,

o camponês perguntou ao caçador:


— Como se faz para

reconhecer o rei?

— Não se preocupe. Lembre-se

apenas disto: enquanto todos fazem a mesma coisa

ao mesmo tempo, o rei é o único diferente.

Observe bem as pessoas ao redor

e assim o reconhecerá.


Uma hora mais tarde, os dois homens

chegaram às imediações do palácio.

Uma multidão se apinhava

diante dos portões.

Todos falavam e comentavam

as notícias do reino.

Quando viram os dois homens a cavalo,

afastaram-se do portão.

e se ajoelharam.

O camponês não entendeu nada.

Todos se ajoelharam, menos ele e o caçador, que

estavam a cavalo.


— Onde pode estar o rei? — perguntou o

Camponês. — Não o vejo.


— Vamos entrar no palácio e

lá você o verá — assegurou o caçador.


E os dois homens entraram

a cavalo no palácio.


O camponês estava preocupado.

Ao longe, viu uma fileira de guardas montados,

que os esperavam na entrada.

Os guardas desceram dos cavalos.

Ficaram todos a pé. Apenas ele

e o caçador continuaram a cavalo.


O camponês irritou-se:

— Você me disse: quando todo mundo

fizer a mesma coisa...

Onde está o rei?

— Paciência.

Você vai reconhecê-lo,

lembre-se apenas disto:

enquanto todos fizerem a mesma coisa

ao mesmo tempo, o rei fará diferente.


O camponês ficou mais perplexo do que nunca.

— Quem pode ser o rei?

Ainda não consigo vê-lo.


Os dois homens apearam também.

Entraram numa sala imensa do palácio.

Todos os nobres, cortesãos e conselheiros

tiraram o chapéu

quando os viram. Ficaram todos

de cabeça descoberta, exceto o caçador

e o camponês, que não sabia por que usavam chapéu

ali dentro do palácio.


O camponês se aproximou do caçador

e murmurou:

— Não estou vendo o rei.

— Não seja impaciente.

Quando todo mundo faz

a mesma coisa ao mesmo tempo,

o rei é diferente.

Logo você acabará por

reconhecê-lo.

Venha se sentar.


Os dois homens se instalaram

num sofá confortável.

Todos ficaram de pé

em volta deles.

O camponês não parava quieto.

Olhou ao redor, aproximou-se

do caçador e perguntou:

— Quem é o rei?

É você ou

sou eu?


O caçador soltou uma gargalhada e disse:

— Você tem razão,

eu sou o rei.

Mas você também

é um rei,

Pois soube acolher um estranho.


Como esta história,

A amizade deles durou muito tempo,

Uma amizade real.

E eis aqui o final.

Tchau!


(extraído de O príncipe corajoso e outras histórias da Etiópia, Praline Gay-Para, São Paulo, Comboio de corda, 2007.)

Gondar: antiga capital do império da Etiópia, situada a nordeste do lago Tana. Foi ocupada pelos italianos entre meados de 1930 até 1941, ano em que os britânicos a bombardearam. A cidade abriga ruínas do período imperial, bem como vestígios de arquitetura fascista.
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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O rei que não sabia ser feliz


Era um rei que não sabia ser feliz. Tinha os tesouros mais preciosos, as terras mais férteis e os exércitos mais poderosos. Morava num castelo prateado construído no alto de uma montanha. Mesmo assim, vivia triste, sombrio e amargurado.
Um belo dia, o tal monarca ouviu falar de um ferreiro muito pobre que morava num castelo com a mulher e um casal de filhos. O povo dizia que o sujeito, mesmo miserável e sem ter onde cair morto, vivia sempre risonho e animado. Anunciava e garantia para quem quisesse ouvir que era muito feliz. O rei não quis acreditar.
- Se eu que sou nobre, rico e poderoso vivo aflito, preocupado e cheio de problemas, como é que pode um zé-ninguém, um pé-rapado, um pobre coitado achar que pode ser feliz?
No fundo, o monarca sentiu uma mistura de raiva com dúvida e inveja. E logo teve uma idéia. Montou seu cavalo alazão, foi até a casa do ferreiro,mandou chamar o homem e disse:
- É verdade que você é feliz?
- Sim! – respondeu o ferreiro com os olhos cheios de luz.
- Ah é? – respondeu o rei. – Então, quero ver se você adivinha:
É, o que é:
tem no começo da rua
vive na ponta do ar
dobra no meio da terra
morre onde acaba o mar?

O rei explicou que voltaria no dia seguinte. Se o ferreiro não adivinhasse ia para a forca.
- E se eu adivinhar? – perguntou o ferreiro, assustado.
- Se adivinhar, fica tudo por isso mesmo!
Disse isso, deu risada, chicoteou o cavalo e partiu a galope.
Naquela noite, a filha do ferreiro sentiu que o pai estava muito preocupado. Conversa vai, conversa vem, o homem acabou desabafando e contando o que havia acontecido. Confessou que não sabia adivinhar. Achava que no dia seguinte ia morrer na forca. A filha do ferreiro deu risada.
- Mas é tão simples! Aquilo que tem no começo da rua, vive na ponta do ar, dobra no meio da terra e morre onde acaba o mar é a letra R!
No dia seguinte, o ferreiro respondeu a adivinha e deixou o rei admirado.
- Mas como você adivinhou?
- Não fui eu – respondeu o homem sorrindo. – Foi minha filha!
O rei não se conformou:
- Ah é? Então mata esta:

O que é, o que é:
agarra, coça e atira
escreve, pinta e inventa
aperta, aponta e dá soco
faz carinho e cumprimenta?

E repetiu o que havia dito da outra vez. Se o ferreiro adivinhasse, ficava tudo por isso mesmo. Se não adivinhasse, forca.
Naquela noite, a filha sentiu que o pai estava, de novo, muito aflito. Conversa vem, conversa vai, o homem acabou contando o que havia acontecido. Disse que não sabia adivinhar. Chorou. Achava que dessa vez ia mesmo morrer na forca. A filha do ferreiro deu risada.
- Mas é tão simples! Aquilo que agarra, coça e atira, escreve, pinta, inventa, aperta, aponta, dá soco, faz carinho e cumprimenta e a mão!
No dia seguinte, o ferreiro respondeu a adivinha e deixou o monarca com a cara no chão.,
- Mas como você adivinhou?
- Não fui eu – respondeu sorrindo. – Foi minha filha!
O rei foi embora pensando:
- Como será a filha do ferreiro?
Chegou no castelo e logo fez um plano. Mandou um criado à casa do ferreiro com um monte de perguntas. Queria dados, detalhes e informações a respeito da moça.
O criado foi. Bateu na porta. Quem atendeu foi a própria filha do ferreiro.
O criado perguntou:
- Cadê sua mãe?
E a moça:
- Foi ver quem nunca foi visto.
E o criado:
- Cadê seu pai?
E a moça:
- Foi mijar pra trás.
E o criado:
- Cadê seu irmão?
E a moça:
- Foi tomar água que passarinho não bebe.
O criado do rei não entendeu nada, despediu-se e foi embora. Quando contou as respostas da filha do ferreiro, o rei ficou admirado:
- Mas é claro como um copo d’água! Se a mãe dela foi ver que nunca foi visto é porque deve ser parteira e foi ajudar uma criança a nascer. Se o pia foi mijar pra trás é porque deve ter desistido de algum negócio.
Se o irmão foi tomar água que passarinho não bebe é porque deve estar bebendo cachaça com os amigos.
O rei era solteiro. Encantado com as respostas da moça, sentiu vontade de conhecê-la melhor. Deu ordens para irem buscá-la imediatamente.
Dito e feito.
Quando a filha do ferreiro em carne e osso, o tal monarca ficou mais encantado ainda. È que a moça era uma fruta preciosa de tão bonita e cheirosa.
O rei, então, pegou-a pelo braço e saiu mostrando os ares, belezas e lugares do castelo. Mas tarde, o casal sentou-se no jardim para trocar idéias e se conhecer melhor. Conversa vem conversa vai, o rei ficou apaixonado de vez. No fim daquele mesmo dia, pediu a mão da moça em casamento.
A filha do ferreiro aceitou e o jovem monarca foi logo mandando preparar a festa, avisar o padre e escrever os convites. Depois, chamou a moça e avisou:
- Decidi me casar com você amanhã mesmo! Como vai ser minha mulher, quero que você hoje volte para casa levando de presente a coisa mais valiosa que encontrar no castelo. Pode pegar o que quiser: pedras preciosas, anéis e colores de diamantes ou arcas cheias de moedas de ouro. De agora em diante, tudo o que é meu é seu!
A moça sorriu agradecida.
- Prometo escolher uma coisa bem valiosa – disse ela -, mas antes queria tomar um pouco de vinho tinto.
Explicou que era para brindar o casamento mas, quando o rei se distraiu, colocou sete gotas de remédio no cálice. Bastou um gole para o monarca ficar zonzo, meio grogue, fechar os olhos e cair desmaiado com um sorriso parado no rosto.
Mais que depressa, a filha do ferreiro chamou os criados, mandou colocar o noivo numa carruagem, disse adeus e levou-o embora .
No dia seguinte, quando o rei acordou, não entendeu nada vezes nada.
- Quem sou eu? Onde estou? O que houve? Como assim? – gritava ele entre zangado e assustado. E depois; - Socorro! Me acudam! Fui seqüestrado!
Gritou e esperneou mas, olhando melhor, reconheceu o lugar e descobriu que tinha passado a noite na casa do ferreiro.
Foi quando a moça entrou no quarto e explicou tudo;
- Você não disse que eu poderia trazer a coisa mais valiosa do castelo?
O monarca fez sim com a cabeça. E a filha do ferreiro;
- Pois bem. Pra mim, a coisa mais valiosa do castelo é você mesmo!
A ouvir aquelas palavras, o rei até inchou de tanta vaidade. Mas a alegria durou pouco. Fazendo cara feia, a moça continuou;
- Só caso com você se pedir desculpas a meu pai. Onde já se viu ameaçar de levar alguém pra forca só por causa de um capricho? Não quero saber de marido egoísta e invejoso que só sabe pensar em si mesmo e não liga pra mais ninguém! Quero me casar com um rei que tente melhorar, e não piorar, a vida de seu povo!
Pego de surpresa, o monarca deu o braço a torcer, vestiu a carapuça e reconheceu que tinha errado feio. Chamou o pai da noiva, ajoelhou-se arrependido e pediu perdão.
Dizem que o casamento do rei com a filha do ferreiro foi uma festança cheia de dança, comilança e esperança. Dizem também que só então aquele homem soube o que era ser feliz.

(extraído de Contos de Adivinhação, Ricardo Azevedo, Ed. Ática,2008)































terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Alecrina

Era uma vez um rei e uma rainha que não tinham filhos. Passeando na horta, a rainha viu um pé de alecrim rodeado de mudinhas. E disse:
- Dê uma olhada: aquele ali é apenas um pé de alecrim e tem tantos filhos, e eu que sou rainha não tenho nem mesmo um!
Passado algum tempo, a rainha também se tornou mãe. Mas não teve um filho, e sim um pé de alecrim. Colocou-o num bonito vaso e o regava com leite.
Um sobrinho, que era rei da Espanha, veio visitá-lo e perguntou:
- Majestade tia, que planta é esta?
A tia lhe respondeu:
- Majestade sobrinho, é minha filha, e a rego com leite quatro vezes por dia.
O sobrinho gostou tanto da planta que pensou em raptá-la. Pegou-a com vaso e tudo, e a levou para a sua embarcação, comprou uma cabra leiteira e mandou levantar âncora. Navegando, ordenhava a cabra e dava leite ao pé de alecrim quatro vezes por dia. Assim que desembarcou em sua cidade, mandou plantá-lo no seu jardim.
Esse jovem rei da Espanha tinha uma grande paixão por flauta e, todos os dias, andava pelo jardim tocando flauta e dançando. Tocava flauta e dançava, quando , do meio da folhagem do alecrim, apareceu uma linda mocinha de cabelos compridos que se pôs a dançar ao lado dele.
- De onde vem? – perguntou-lhe ele.
- Do alecrim – respondeu ela.
E, terminada a dança, retornou à folhagem do alecrim e não se deixou mais ver. Daquele dia em diante, o rei despachava às presas os negócios do Estado e ia para o jardim com a flauta, tocava e a linda mocinha saía do meio das folhas, e juntos dançavam e conversavam de mãos dadas.
No melhor do namoro, o rei recebeu uma declaração de guerra e teve de partir. Disse à mocinha:
- Minha Alecrina, não sai da sua planta enquanto eu não voltar. Quando voltar, tocarei três notas na flauta e então você sairá.
Chamou o jardineiro e lhe disse que o pé de alecrim precisava ser regado com leite quatro vezes por dia; e, se na volta o encontrasse murcho, mandaria decapitá-lo. E partiu.
É preciso saber que o rei tinha três irmãs, moças curiosas que havia um bom tempo se perguntavam o que andaria fazendo o irmão horas seguidas no jardim com a flauta. Assim que ele partiu para a guerra, foram vasculhar seu quarto e encontraram a flauta. Pegaram-na e foram até o jardim. A mais velha tentou tocá-la e saiu uma nota, a segunda a tirou da mão dela, soprou e emitiu outra nota, e a caçula, por sua vez, tocou uma nota ela também. Ouvindo as três notas e pensando que o rei tivesse regressado, Alecrim pulou para fora das folhas. As irmãs:
- Ah! Agora entendemos por que nosso irmão não saía mais do jardim! – E, malvadas como eram, agarraram a mocinha e bateram nela quanto puderam. Aquela infeliz, mais morta que viva, correu para seu alecrim e desapareceu.
Quando o jardineiro veio, encontrou a planta meio murcha, com as folhas amareladas e pendentes.
- Ai, pobre de mim! O que vou fazer quando o rei vier!
Correu até sua casa e disse à mulher:
- Adeus, tem que fugir, você passa a regar o alecrim com leite. – E fugiu.
O jardineiro caminhou pelo campo a mais não poder. Quando anoiteceu, estava num bosque. Com medo dos bichos, trepou numa árvore. À meia-noite, sob aquela árvore, haviam marcado encontro uma Mamãe-Dragona e um Mamo-Dragão. E o jardineiro, escondido em cima da árvore, arrepiava-se ouvindo-os bufar.
- Quais são as novidades? – perguntou Mamãe-Dragona ao Mamo-Dragão.
- E quais queria que fossem?
- Você nunca me conta nada de novo!
- Ah, sim, o pé de alecrim do rei murchou.
- E como isso aconteceu?
- Aconteceu assim: agora que o rei está na guerra, as irmãs começaram a tocar a flauta e, do alecrim saiu a moça encantada, e as irmãs a deixaram mais morta que viva de tantas pancadas. Assim, a planta está murchando.
- E não há meio de salvá-la?
- Até que haveria...
- E por que não me conta?
- Bem, não é coisa que se diga: as árvores têm olhos e ouvidos.
- Deixe disso; quem é que nos ouviria no meio do bosque?
- Então vou lhe contar este segredo: seria preciso pegar o sangue da minha garganta e a gordura do seu cangote, fervê-los juntos numa panela,e untar todo o pé de alecrim. A planta vai secar completamente, mas a moça sairá dela sã e salva.
O jardineiro ouvira toda a conversa com o coração nas mãos. Assim que Mamo-Dragão e a Mamãe-Dragona adormeceram e ele ou ouviu roncar, arrancou um galho nodoso, pulou no chão e com dois golpes certeiros os mandou para o outro mundo. Depois, retirou o sangue da garganta do Mamo-Dragão, a gordura do cangote da Mamãe-Dragona e correu para casa.Acordou a mulher e:
- Rápido, ferve estas coisas!- E untou o alecrim raminho por raminho. A moça saiu e o alecrim secou. O jardineiro pegou a moça pela mão e a levou para sua casa, colocou-a na cama e lhe deu um bom caldo de sopa.
O rei volta da guerra e, antes de mais nada, vai até o jardim com a flauta. Toca três notas, toca três , e haja fôlego para assoviar! Aproxima-se do alecrim e o encontra sequinho seu uma única folha.
Furioso como uma fera, correu à casa do jardineiro.
- Hoje mesmo será decapitado, desgraçado!
- Majestade, acalme-se, entre um instante em minha casa e lhe mostro uma coisa maravilhosa!
- Coisa maravilhosa um corno! Você será decapitado!
- Primeiro entre, depois faça o que quiser comigo!
O rei entrou e encontrou Alecrina deitada, pois ainda estava em convalescença. Ela ergueu a cabeça e lhe disse, como lágrimas nos olhos:
Suas irmãs me espancaram, e o pobre Jardineiro salvou minha vida!
O rei estava transbordado de felicidade por ter reencontrado Alecrina, com ódio das irmãs, muito agradecido ao jardineiro. Tão logo a moça se restabeleceu, quis casar com ele, e escreveu ao rei seu tio que o alecrim que ele roubara havia se transformado numa lindíssima jovem e o convidava, e também à rainha, para o dia do casamento. O rei e a rainha, que estavam desesperados por não saber nada da planta, quando o embaixador levou aquela carta para eles e souberam que a planta era na realidade uma linda moça, filha deles, ficaram como loucos de alegria. Partiram imediatamente e, bum! bum!, dispararam muitas salvas de canhão ao chegar ao ponto, e Alecrina já estava lá esperando pelos pais. Celebrou-se o casamento e foi feito um banquete com uma mesa do tamanho da Espanha.

(extraído de Fábulas Italianas, Ítalo Calvino, Cia de Bolso,2006)

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Aguarde a próxima história na 3a. feira que vem!!!

E então, gostou da história da loira do banheiro? Pois é, essa história foi ouvida em São Paulo e quem contou foi Lauro da Cruz Correa.

Na terça-feira que vem você vai ler uma história de encantamento muito interessante que foi coletada por Ítalo Calvino e consta de seu livro " Fábulas Italianas". Não deixe de acessar e se deliciar com essa bela história!!! Até lá!

A loira do banheiro

Na vida, tenho duas paixões: literatura e cinema.
Quando era menino, eu queria ser ator, trabalhar em filmes de aventuras, fazer papel de astronauta, de soldado, tudo que envolvesse muito perigo.
Mas eu nasci no interior de São Paulo. Difícil realizar um sonho desses.
Quando eu tinha dezessete anos, comecei a ler histórias de terror. Conheço todos os grandes mestres do suspense: Edgar Allan Poe é meu preferido, em segundo lugar está Bram Stoker, criador de Drácula.
Durante vários anos vivi todas as emoções mais intensas, o medo, o amor, o perigo, lendo livros ou sentado no cantinho escuro de um cinema.
Sou um cara de sorte. Trabalho com aquilo que mais gosto: livros. Atuo como divulgador de uma grande editora. Percorro as escolas mostrando os lançamentos, contando as histórias, enfim, sou pago para ler, veja só.
E sempre que eu tentava vender uma boa história de fantasmas, depois fechava o livro aliviado e comentava com os professores: escritores têm tanta imaginação... Já pensou se tudo isso fosse verdade?
Até o dia em que descobri que o mistério nos ronda, nos assombra, também fora dos livros e dos filmes.
E se os fantasmas existirem?
Afinal, há histórias assim no mundo todo...
Essa dúvida me persegue e tudo começou por causa de uma história que me foi contada por três garotos apavorados.
Eu caminhava pelos corredores de uma escola levando meus livros, minha maleta com os catálogos editoriais, os braços repletos de panfletos anunciando os lançamentos.
Vi a porta do banheiro masculino abrir-se com toda violência. Dela saíram três jovens de mais ou menos dezessete anos de idade. Cabelos molhados, respiração ofegante, o rosto em pânico. Aquilo despertou minha curiosidade.
Na saída da escola, encontrei um deles, Ricardo era seu nome. Normalmente sou muito discreto, mas a curiosidade me matava.
- Vem cá, me conte, por que foi que vocês saíram correndo daquele jeito? Viram alguma assombração?
Ele custou um tempo para responder. Mas de repente disse bem baixinho:
- Mas eu vi mesmo, eu vi um fantasma.
- Que fantasma, garoto? Você está passando bem? Quer que eu chame sua professora?
- Não, escuta, eu só vou contar pro senhor, depois eu quero esquecer.
-Então conte, mas é melhor sair daqui, do meio do corredor.
Fomos até o pátio, o garoto respirou fundo e começou a me contar:
- Bom, o negócio começou assim: eu tenho mais dois amigos. Eu sou o Rico, depois vem o Betão. O Betão é cético. Ele tem que ver para crer. Só que ele nunca vê nada. Aliás, ele vê sim. Garotas. O cara é magrinho, tropeça em tudo, mas faz o maior sucesso. Dá raiva, até. Bom, tem também o João. Ele ri muito, é o contrário do Beto, acredita em tudo que se fala. Chupa-cabra, ET de Varginha, Loira do Banheiro e daí vai.
- E você? É cético ou crédulo? – perguntei, achando engraçado o jeito do menino.
Eu? Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, como dizia minha avó. Eu acredito e não acredito. Não vou dizer que preciso ver para crer, porque dá de ver...
- E você já viu alguma coisa estranha, certo?- Sugeri.
- Certo. Foi assim: nós três estávamos no banheiro falando das meninas. O único de nós que já teve namorada foi o Beto, claro. O João estava sentado no chão. E eu estava louco da vida. Tinha levado um fora de uma garota. Foi então que tive uma idéia. Era maligna, agora eu sei. Até hoje me arrependo. Mas quando vi, já tinha falado “E se a gente chamasse a tal da Loira do Banheiro?” O senhor já ouviu falar?
-Não – respondi, achando aquela conversa engraçada.
- É uma loira fantasma. Ela aparece para quem invoca seu nome.
- Vai me dizer que ela apareceu para vocês – eu disse, incrédulo.
- Bem, nós fizemos tudo que era preciso: bater três vezes no espelho, falando bem baixo, com voz apaixonada, loira, loira, loira, depois a gente deu descarga três vezes e três pulinhos ridículos. Mas eu estava tão bravo naquele dia... resolvi fazer palhaçada, pensava que era só brincadeira.



Mas não era, não.
Lembro de tudo até hoje.
Corri para o espelho.
Beijei minha boca.
Sussurrei: loira, loirinha, vem cá...
Meus amigos morriam de rir.
Fizeram igual.
Depois, todos nós demos três descargas.
Ríamos tanto que a barriga dia.
Depois demos os três pulinhos.
Foi nisso que apareceu o diretor.
Resultado: suspensão para todos nós.
Na volta para casa, meus amigos estavam muitos bravos comigo.
De repente, eu vi. Uma loira linda. Atravessando a rua.
- A loira! – gritei.
- Você está louco? Essa loira é gente, não é fantasma coisa nenhuma! – o João falou
Do outro lado da calçada, a loira caminhava, sorria e acenava de longe. Quase desmaiei. Só não desmaiei porque apareceu outra loira. É isso mesmo. Eu ia gritar, mas daí surgiu a última loira. Idêntica. Loiras trigêmeas. Uma para cada um de nós.
Bom, atravessamos a rua feito loucos. As loiras nos acenavam do outro lado. Nem vimos os carros, nem ouvimos a buzina, nem o ruído do breque.
Quando acordamos, estávamos no hospital. Uma maca ao lado da outra. Todos nós machucados, braços, perna na tipóia.
De repente, Betão estendeu a mão para o espelho do quarto do hospital e gritou assim:
- Olha lá as loiras!
Eu olhei. Antes não tivesse olhado.
As trigêmeas. Lindas. Idênticas. Uma para cada um de nós.
Sabe onde?
Dentro do espelho.
Acenando adeus. Rindo.
Desmaiamos outra vez.
É por isso que nunca vamos ao banheiro sozinhos, de jeito nenhum. E se ela aparecer?

Quando o menino acabou sua história, levantou-se e foi embora rapidamente.
Fiquei pensando, essa história dava um bom conto de terror, a garotada inventa cada coisa para acabar com o tédio... Loira do Banheiro!
Mas, naquela noite, sonhei com lindas loiras fantasmagóricas, dançando nos reflexos dos espelhos, na tela da televisão...
Acordei pensando que aquilo já estava virando um exagero. Afinal, era só um desses casos malucos, bobagem de criança.
Acontece que, daquele dia em diante, cada vez que entro no banheiro de uma escola, lembro-me da Loira Fantasma.
Confesso que, ao longo do tempo, encontrei várias outras crianças assustadas com essa mesma assombração. Parece epidemia. Um medo que contagia. É, porque aos poucos, vou ser sincero, eu também comecei a sentir medo. Mesmo sendo um adulto, mesmo conhecendo tantas histórias e tantos filmes de terror, há dias em que entro no banheiro bem rápido, lavo as mãos sem olhar para o espelho e, quando fecho a porta, respiro bem aliviado.
E se for tudo verdade?
E se os fantasmas existirem?
Como é que ficam os vivos?
Uma coisa eu sei.
Depois da Loira, todas as outras histórias viraram bobagem, invenção de escritor.

(extraído de A loira do banheiro e outras histórias de Heloisa Prieto; Editora Ática, 2008.)